terça-feira, 3 de novembro de 2015

Porque animes são tão ruins (ou quem financia essa merda não é voce)

Tudo começou com essa matéria do GoBoiano e que me levantou uma pergunta bastante intrigante: eu já assisti algumas dezenas de horas de anime na minha vida - certamente bem mais - e se gastei mais de 20 pila com isso foi muito. Na verdade não conheço ninguém que tenha feito, então da onde vem o dinheiro que sustenta os animes?



Sim, tal qual Oronok Coração-Partido, durante minha vida eu fui muitas coisas. E uma destas coisas foi ser otaku - no sentido ocidental da palavra, eu sei que no Japão "otaku" é pecha para qualquer tipo de nerd loser seja qual for seu interesse. Eu não me orgulho particularmente disso, mas também não me arrependo dado que a época eu realmente me divertia com saporra (sério, eu fazia todo um ritual para assistir animes absurdamente ruins como Tenchi Muyo)

Aí a vida aconteceu, eu cresci e fui perdendo o interesse por anime porque, honestamente, anime é uma bosta. Com efeito, eu chutaria que 95% de tudo que sai do Japão é absolutamente intragável para qualquer ser humano com o mínimo de capacidade de entender uma história. Em um bom ano você consegue aproveitar um ou dois animes para recomendar sem passar vergonha - o que não é tão ruim, não fosse o fato que em 2014 foram exibidos CENTO E SETENTA E UM ANIMES na televisão japonesa. 1.7.1. E você patina para achar um que seja bom, chora lágrimas de sangue para achar um que seja ótimo.

Eu sempre tive a teoria que anime é a mídia com maior índice de lixo para cada boa obra produzida. Não existem 100 livros medíocres  para cada um apenas bom todo ano, não são lançados 100 filmes que você não aguenta até o final para cada um apenas assistível, ou videogames, ou música. Não tenho estatísticas para isso, mas a sensação que dá é essa.

Então fica a pergunta: porque anime é tão ruim, estatisticamente? Os japoneses são aliens incompreensíveis que operam em uma frequência intangível para os ocidentais?  Se eles sustentam essa indústria de tanto lixo é porque eles gostam, certo? CERTO?

ERRADO. SHIGAU, SHIGAU, CABEÇA DE MINGAU.

Eu realmente achava que os japoneses eram abilolados que realmente gostavam desse merdere todo, mas foi só quando eu pesquisei para entender como a indústria de anime se sustenta que eu fiz a descoberta mais revolucionaria de todos: JAPONESES SÃO PESSOAS NORMAIS.
Sim. O Japão tem uma cultura diferente da minha e da sua, mas no fundo eles são seres humanos como eu e você e em essência não somos tão diferentes assim. Gostamos de equipes de heróis, coisas gigantes e não nos ofendemos com novinhas bonitas em nosso entretenimento, embora as medidas do que é aceitável variem enormemente de um lado a outro do planeta. Mas de boa, o japonês típico é alguém com quem você poderia conversar sobre suas preferências da cultura pop e vocês estariam falando o mesmo idioma. Talvez não o mesmo dialeto, mas no fundo eles são gente como a gente.

CERTO, MAS ENTÃO PORQUE OS ANIMES SÃO COMO SÃO?

Ao evocar a palavra "anime" deve imediatamente te vir a mente uma dose bastante juvenil de fanservice, roteiros formulaicos e personagens clichês, temperados com piadas das quais ninguém ri. E pegando 95% dos animes é realmente incompreensível porque alguém com mais de 14 anos assistiria, então qual é o truque aqui? (note-se que eu não vou falar sobre animes infantis aqui)


"SIGA O DINHEIRO", COMO ENSINOU O CASO WATERGATE

Imagino que seja desnecessário explicar o quanto animes são caros de se fazer. Realmente caros, na casa de CEM MIL DOLARES (alem de mulheres, automóvel, mulheres, iate, mulheres, mansões e mulheres) a TREZENTOS MIL DÓLARES por episódio. Por isso os animes fazem o que podem para cortar custos, como o cliche dos personagens surdos ("O que? Ele disse personagens surdos?" "Sim, ele disse personagens surdos" "Não pode ser, personagens surdos?" "Tem certeza? Personagens surdos" "Não há duvida, personagens surdos"), as aberturas de um minuto e meio, os golpes especiais e transformações mágicas que usam os mesmos frames de animação todo episódio, episódios de recapitulação e por aí vai. Ainda sim, o negócio é caro para caralho. Considerando outros custos envolvidos (marketing e distribuição, várias outras coisas) o preço final de uma temporada de anime fica em torno de 2 a 4 MILHÕES de dolares.


Não é pouca merda. (embora seja consideravelmente menos do que um episódio de série americana)


Mas a questão que realmente importa: você tem, agora, 2 a 4 MILHÕES de dólares sobrando para apostar em um anime? Pois é, nem os japoneses tem tanto dinheiro sobrando assim. Começa daí que por esse motivo a maior parte dos animes é adaptação de alguma coisa - seja jogo, manga ou light novel - que já tenha algum respaldo de popularidade. Se pensar bem, não é muito diferente do que acontece com Hollywood atualmente. E é por isso que vemos poucos animes originais.

Mas tudo bem, esse não é nem de perto o problema. O problema vem na hora de pagar essa conta.
Obviamente o estúdio de TV (ou a fabricante de brinquedos, ou quem quer que esteja querendo o anime) precisa de ajuda para bancar essa festa e então é formada uma comissão de interessados.

E quem paga a banda escolhe a música, é como dizem.

Esse é o comite de produção de um filme do Estúdio Gibhli,
que é bastante simplificado. Normalmente tem o dobro
de gente envolvida


Se você alguma vez na vida já fez um trabalho em equipe, sabe o tamanho da merda que isso é. Tem uma puta guerra de interesses e egos cada um querendo puxar a sardinha para o seu lado.

Verdade que tradicionalmente os executivos japoneses se interferem menos nas decisões criativas do que os seus pares americanos (né, FOX? Né HASBRO?) e respeitam o trabalho dos artistas, mas ainda sim todos sempre tem sua própria agenda a cumprir. De modo geral, ainda não é esse o real problema dos animes (não mais do que é no ocidente, pelo menos)

Mas certo, os caras levantaram o dinheiro, o anime foi feito e exibido na TV. Como é que eles recuperam esse dinheiro e levam algum tutu pra casa? Aqui é onde a Super Pig torce o rabo. Me senti velho agora.




ME MOSTRE O DINHEIRO!

Até meados dos anos 90 a economia japonesa ia muito bem, obrigado, e os estúdios podiam bancar a brincadeira com relativa tranquilidade dependendo apenas de anúncios comerciais, como majoritariamente acontece com a TV aberta por aqui. Só que na década de 90 a bolha da economia japonesa explodiu e o país enfrentou uma crise que ecoa até hoje e isso ecoou em todos os setores da sociedade. Ganha uma bala Xaxá quem imaginar que a publicidade não estava mais bancando essa brincadeira.

Então quem banca os bancadores?

Desenhos animados infantis normalmente são financiados por empresas que querem vender brinquedos ou jogos. O exemplo mais clássico que temos é que a fabricante de brinquedos Bandai é responsável por custear o anime mais importante da história da televisão brasileira: Cavaleiros do Zodíaco, que sempre foi um grande merchan para vender bonequinhos. E funcionou muito bem, até hoje eu quero sasporra tudo!

Com efeito o ultimo anime da série, Soul of Gold, foi veiculado diretamente na internet porque a receita dos comerciais de TV não era importante, anunciar os bonecos para o maior numero de pessoas sim. E isso se aplica as tralhas de Digimon, Pokemon, e todos animes que normalmente passam o com o horário no canto da tela.

Mas animes infantis são minoria, o grosso das produções passa de noite para um publico mais velho. Ora, se a publicidade não paga a conta então como se tira dinheiro dessa gente toda? A resposta é simples: DVDs.

NÃO, ESPERA, ESSA CONTA NÃO TÁ FECHANDO.

Agora você deve imaginar que não pode estar certo isso. Não pode ter TANTO fã de anime (do tipo que coleciona DVDs e dolls e coisas do tipo) assim no Japão. Pense na sua série favorita, quantas pessoas você conhece que tem o box com os DVDs de toda coleção dela? Bem poucas, certo? Possivelmente nenhuma, nem mesmo você. E eu havia dito que os japoneses não eram tão diferentes de nós assim, então como pode?

Alguma coisa errada nesta conta não está certa
Com efeito, no Japão Otakus do tipo que fazem questão de comprar essas coisas são mais raros do que nerds hoje em dia por aqui, e socialmente muito mais mal vistos, então como é possível que essa indústria se sustente?

RESPOSTA: os DVDs de animes são absurdamente caros no Japão. Tipo caros pra caralho, um DVD de anime normalmente vem com dois episódios e custa por volta de cem dólares. CEM DOLARES POR DOIS EPISÓDIOS. Um pouco mais, um pouco menos, mas mais ou menos isso.

Da onde vem esse preço? é uma questão cultural japonesa. Os japoneses tinham a tradição de alugar muito filmes, séries e animes nos anos 70 até meados dos anos 90 não porque eles não tinham dinheiro para comprar a coleção para si (como era o caso do Brasil e o sucesso das locadoras) mas sim porque eles não tem espaço físico para se atulhar com coleções a menos que seja realmente importante para eles. Então as empresas lançavam poucas quantidades de fitas (depois DVDs) apenas para as locadoras, e se era pouco então ficava caro.

Só que o que a indústria de anime não contava era com os otakus, que passaram a comprar essas fitas e DVDs para suas coleções particulares movidos por nada senão paixão. Mesmo que fosse caro pra caralho, é por gostar muito mesmo dessa porra. O darwinismo econômico fez com que os otakus acabassem como publico alvo do mercado de DVDs (até porque as mídias digitais acabaram matando a necessidade de locadoras hoje em dia). 

Com efeito os DVDs de outras coisas (filmes, séries, etc) não são tão caros assim hoje em dia, apenas os DVDs de anime se mantém caros porque o colecionadorismo sustenta esse negócio. O que? Não acredita que são os colecionadores que sustentam o negócio? Então deixa eu te mostrar alguns números:


Isso mesmo. Um anime de 13 episódios (em 6 DVDs de 2 episódios custando 90 dólares) precisa vender apenas 8000 unidades para se pagar. Em um país de 130 milhões de pessoas. Agora essa conta parece muito mais plausível, não é?

AGORA PENSE NAS IMPLICAÇÕES DISSO

Ok, agora pense: animes são feitos para o tipo de otaku que paga mais de mil dólares para ter a coleção de um anime de 26 episódios. Em uma economia em recessão, não pense que todo mundo caga dinheiro no Japão assim não. O  tipo de gente que faz isso é o mesmo tipo de gente que compra dolls eróticas, travesseiro de waifu e todo tipo de coisa pelos quais os otakus são ridicularizados tanto aqui quanto lá.

Não é voce que financia essa merda, é esse cara!
Esse é o truque: anime não é feito para mim, para você ou a galera com quem você dá uns roles. é feito para gente obcecada e sem noção da realidade. é feito para otaku de verdade, porque precisa de apenas 8 mil deles para bancar uma temporada de anime.

Ainda sim, leva muitos anos para um anime dar retorno comercial porque mesmo esse numero mágico não é tão fácil de atingir. No Japão DVDs de anime são vistos como comodite de luxo para colecionadores e tratados como tal

Considerando isso, tudo faz muito mais sentido, não é? Os clichês, a necessidade quase patológica de fanservice, a cultura moe, as versões porcas na TV que são feitas de qualquer jeito e depois remasterizadas no DVD, a infantilização dos relacionamentos. Não é que os japoneses não sejam normais e gostem dessas coisas, é que os animes são feitos especificamente para esse publico. Acredite ou não, a infinita massa das pessoas no Japão é normal. Como eu ou você, um pouco diferente por questões culturais, mas gente normal. Animes não as representam. Literalmente.

Anime é feito para o 1% otaku doente. Mesmo.
E por isso a imensa maioria dos animes é ruim.

fonte: das diversas pesquisas que eu li a respeito na internet, a mais completa sem duvida é a da Anime News Network que explica em detalhes a situação do financiamento de animes no Japão. O artigo é bem completo e também fala sobre a situação dos animes nos Estados Unidos (que é uma realidade inteiramente diferente) e como os meios digitais (Netflix, Crunchroll) influenciam atualmente. Altamente recomendado.







2 comentários:

  1. KKKKKKKKKKKK KKKKKKKKKKKK KKKKKKKKKKKK KKKKKKKKKKKK KKKKKKKKKKKK KKKKKKKKKKKK

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  2. Caramba, não tinha a menor ideia de que era assim! Super informativo para o espectador ocasional :-)
    Felizmente existem muitas exceções nesses anos e anos de produção. Sou muito fã dos filmes do Miyazaki. Considero eles como tendo extremo valor emocional e que ensinam valores muito importantes. Eles não param de me surpreender: Nausicaa e Mononoke Hime(natureza), Grave of Fireflies (guerra), [Arietty, kikis delivery service] (adolescer e responsabilidades), Whisper of the Heart e From up on poppy hill (sentimentos). Enfim, esses filmes capturam, na minha humilde opinião, muito bem a arte de viver.
    Quanto aos demais comuns e regulares, assisto cavaleiros ate hoje, ocasionalmente, por uma questão de costume. Mas estão, e na realidade sempre foram extremamente enfadonhos e repetitivos (cavaleiros subindo e descendo escadas). Na minha opinião series como cavaleiros, dragon ball, smallville (as vezes me envergonho disso), poderiam reduzir em mais de 70% o numero de episódios contando mais historia e com menos enrolarão. E estão nesse grupo com certeza todos esses animes de "lutinha".
    Enfim, concluo que, apesar de ter muita porcaria produzida para um pouco representativo grupo de Otakus tem muita coisa boa. Ate porque temos já muitos anos de produção em circulação. E animes velhos não saem de moda (Akira, Ghost in the shell?).
    Obrigado pelo artigo que explica todo o resto. Mas bobagens tipo School Rumble e Bokusatsu Tenshi me agradam e me fazem rir bastante... portanto acho que ate dentre essas porcarias se acham coisas boas que divertem e tem o seu lugar :-)

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