sexta-feira, 3 de novembro de 2017

[FILME] DEATH NOTE (ou como uma deusa, você me mantém!)



Em primeiro lugar, calmem suas tetas, pessoal! Death Note, o longa da Netflix, é uma adaptação do anime, tanto quanto “Como Treinar Seu Dragão” é uma adaptação dos livros de Cressida Cowell (os mais pessimistas vão dizer que é como o filme do Mario). Ou seja, não é. É uma obra inteiramente nova, que acontece de ter alguns personagens com os mesmos nomes e alguns conceitos do anime/mangá original. Então tenha isso em mente, é importante.


Aliás, antes de começar, eu realmente gostaria de enfatizar o quanto a série Como Treinar Seu Dragão é diferente dos filmes, e você não pode deixar de ler só porque “ah, já vi os filmes”. Não, é uma coisa toda diferente, e a autora tem um senso de humor que vale a coisa toda. Ok, continuando.
Como eu disse, o filme apenas usa nomes de personagens (mas não os personagens em si) e conceitos, então eu não vou fazer comparações com o anime em nenhum momento daqui para frente. Exceto quando eu fizer. A melhor forma de explicar Death Note é dizer que ele é Premonição (sim, Final Destination, aquele das mortes) se a série tivesse sido escrita por John Hughes.

QUEM?

Ah, aí está você. Achei que não ia me brindar com o prazer da sua companhia – o que seria o fundo do poço para alguém que só fala com a voz na sua cabeça.

Bem, respondendo a sua pergunta, John Hughes é O roteirista de filmes sobre adolescentes dos anos 80. Sabe todo conceito de colegial americano que nós temos tão enraizado na nossa cultura hoje? Tudo João Enormes.

PÁRA, ELE NEM DEVE TER SIDO ISSO TUDO…


TAMERDA!, JOHN HUGHES ESCREVEU METADE DA SESSÃO DA TARDE!

Esse mesmo. E se João Enormes tivesse escrito um filme sobre um deus da morte (vou chamar de shinigami para aliviar a larica dos otakus, mas essa palavra nunca é usada durante o filme) causando mortes muito doidas, esse seria o seu filme. Essa foi uma grande sacada da Netflix: as mortes realizadas pelo Death Note são muito, muito parecidas com as mortes “acidentais” de Premonição, e de longe isso é a coisa mais divertida de se assistir no filme.

Some a isso efeitos especiais deliciosamente toscos, e temos algo muito engraçado de se assistir aqui.

ESPERA, ENGRAÇADO? EU ACHEI QUE DEATH NOTE IA SER…

Xiu!, que você perdeu minha explicação inicial, então não vem querendo chegar atrasado e sentar na janelinha não. Death Note é um filme trash engraçado especial, porque a qualidade dos efeitos especiais do filme é uma coisa desse nível:





Sério, te juro que os efeitos especiais do filme não são muito melhores que isso. É tão tosco que é hilário. Honestamente, eu não me importaria que o filme abraçasse mais o seu lado Premonição e fosse basicamente sobre isso. Infelizmente, não é.

OK, E SOBRE  O QUE É ESSA “COMÉDIA INVOLUNTÁRIA”?

Death Note tem uma premissa interessante. Um jovem recebe um caderno mágico que lhe permite matar qualquer pessoa no mundo apenas escrevendo seu nome e pensando em seu rosto. O que você faria se tivesse esse tipo de poder divino? Como você os usaria?

Você tem a capacidade de matar o pedófilo na rua, o estuprador que escapou, ou o seu político menos favorito. Diabos, você poderia matar a Suzane von Richthofen em menos de dois segundos. Parece fácil do lado de fora, não é? Claro, bandido bom é bandido morto, fuck yeah! Vou matá-los! Mate todos!

Mas quando vem a hora de puxar o gatilho (ou destampar a caneta, nesse caso), você teria estômago para isso? A maioria das pessoas não. É por isso que nos pelotões de fuzilamento têm sempre uma arma com balas de festim. Os atiradores não sabem quais armas têm balas reais e quais são falsas. Isso os ajuda a dormir à noite. Você pode ir para a cama pensando que talvez não foi você quem disparou as balas reais e matou um homem. É decepcionante que o filme não tenha realmente explorado essa área.

Agora você vai perguntar “como assim não explora?”


 
De todas as coisas, o caderno tinha que ter caído em cima do cocô?

COMO ASSIM NÃO EXPLORA… CARA, DESDE QUE ASSISTIU JOJO VOCÊ FICOU UM SACO

Incorreto. Eu sempre fui um saco muito antes disso, mas respondendo à sua pergunta…  20 minutos ou mais no filme e Light menciona de passagem que ele e sua namorada, Mia, mataram mais de 400 pessoas usando o Death Note. Mesmo? No período de algumas semanas, vocês mataram 400 pessoas? Bem desse jeito? É assim tão fácil, hein?

É nesse ponto que eu parei de me importar. Como posso me preocupar com uma história, se a escrita do personagem principal falha em um nível tão fundamental? Talvez faria mais sentido se Light fosse um psicopata. Exceto que nada neste filme sugere que ele é. O diretor quis deliberadamente fazer “e se o caderno caísse nas mãos de um adolescente comum, muito inteligente, mas normal”. O que é um tema válido e daria uma diferenciada bonita do tema do anime.

Eu disse que não ia fazer comparações, mas isso não é uma comparação de personagem e sim de narrativa: esse é um ponto que o anime se esforça muito para mostrar, Light é um sociopata com a capacidade de empatia do tiozinho que fecha o portão do Enem porque a história SÓ FAZ SENTIDO  se ele for desse jeito.

Aliás, isso não tem nada a ver com a performance do Nat Wolff, que é um pouco mais do que decente. Ele fez o melhor que pôde com o material que recebeu.




A Misa ficou… bem descolada, na verdade. Quem diria?

A namorada da Light, Misa, é um trem desgovernado, bem pior do que Light. Ela, sim, é abertamente uma psicopata. O que faz algum sentido na ideia proposta, como eu disse acima, mas não muito. Eu entendo o que o diretor Adam Wingard, juntamente com seus roteiristas, estavam tentando realizar. Às vezes, quando você recebe tanto poder, ele começa a te corromper. Torna-se um vício. Muito parecido com Smeagol no Senhor dos Anéis.

Mas o roteiro é tão magro, que não faz sentido como e por que Mia queria porque queria tanto matar pessoas. Quem é ela como pessoa? Por que ela é assim? Literalmente, a única coisa que sabemos sobre ela é o fato de ela ser uma líder de torcida. “Eu sou uma líder de torcida”, ela diz com muita ênfase. Acho que a nossa reação deveria ser “OHHHH !! Ela é uma líder de torcida. Não é de se admirar que ela goste de matar pessoas. Agora eu entendi!”

Ela sofria bullying? Ela se tornou líder de torcida como meio de afogar traumas de infância? Por quê? O quê? Quando? Como? Como eu disse, depois de um tempo você acaba parando de se importar. Preocupa muito que ELA seja a personagem mais interessante do filme. Honestamente, o que eu teria feito é colocá-la como protagonista e dar mais tempo de tela para ela. Ajudaria horrores.

Ao menos ela é uma personagem muito melhor que sua contraparte no anime (Até porque, menos seria impossível. Ô tiro no saco que é aquela Amane Misa)




Nesta imagem, um monstro folclórico que aterroriza a humanidade a eras com seu sorriso perturbador… e também o Shinigami Ryuki

FALANDO EM PERSONAGENS… EU SEI QUE VOU ME ARREPENDER DE PERGUNTAR ISSO, MAS COMO É O WILLEM DAFOE COMO RYUKI?

A resposta é aquela que você já imaginava: seria mais perturbador se fosse o ator em carne e osso. Ô homem creepy!, puta que me pariu de tamanco… Quanto ao personagem, Ryuki espreita nas sombras um pouco, mas, então, ele se entedia de ser o cara misterioso e assustador. Então, ele decide aparecer na luz em vez disso, expondo suas mãos de borracha, fazendo piadas e comendo maçãs. O que deu uma mistura creepy e divertida.

De todos os personagens do filme, Ryuki foi o que menos sofreu modificações e as que sofreu foram para melhor. Ele é creepy e um trollzão entediado que tá nessa só pelo amor à zueira. Só que no filme esses dois aspectos são mais reforçados e o shinigami parece mais filho da puta (e perigoso) do que no anime.

E O L?

Err… voltando a falar da trama, o maior problema do filme é que não parece que, em algum momento, alguém tenha decidido sobre o que o filme seria realmente. Tem uma caçada internacional e uma conspiração governamental envolvendo um programa de desenvolvimento de crianças prodígio; tem essa atmosfera de “500 Dias com Ela“, só que em uma versão assassina, quando um casal descobre o amor e o genocídio; tem várias cenas de morte aleatórias que – como eu já disse – caberiam perfeitamente em um “Premonição“; tem o suposto dilema moral de salvar o mundo da devastação encarnando o Bolsotron 2018; e tem uma cena de perseguição de dez minutos com uma pessoa correndo atrás da outra.

Sim, em um filme de 1h40, tem uma cena de dez minutos mesmo só de correria, o que foi claramente a equipe de produção atirando a toalha e dizendo “ok, vamos só encher linguiça para dar o tempo”.
E tem as regras do Death Note, que nunca são claramente explicadas. Só sabemos que tem quase 100 regras para usar essa porra, e elas só são explicadas quando são importantes para uma cena. Ou seja, do ponto de vista do espectador, elas são tiradas da bunda na hora.

Enfim, tem muita coisa acontecendo, e o filme não se foca em nenhuma delas realmente. Só joga, quem pegar pegou e azar.



Toda vez que o L aparecia na cena, eu ficava esperando ele abrir o sobretudo e dizer “WELCOME STRANGER, WHAT ARE YOU BUYING, STRANGER?”

E O L…? HEIN?

Quer dizer, o filme parece bom – a violência é visceral e chocante, e lembra constantemente que essas crianças estão brincando com vidas de pessoas reais. Mas o dilema moral nunca tem peso com o público, porque o filme não dá espaço para respirar. Com efeito, o filme é tão abarrotado de informação que o final tem que ser explicado por uma narração em off – o que é meio que a prova absoluta de que o diretor aceitou que não conseguiu contar sua história mostrando ela. Ou que você está vendo um filme do Christopher Nolan, e sempre tem um personagem narrando o que está acontecendo na tela.

TÁ, MAS E O L? EU QUERO SABER DO L!

Bem, se você faz realmente questão, o L é… ridículo. Simplesmente ridículo. Sério, me diz em que mundo alguém vai e dá uma conferencia de imprensa vestido desse jeito e tá tudo certo:



Me diz que você veria uma conferencia de imprensa desse cara e levaria isso a sério. Não dá, cara, sério.

Durante o filme todo, L é um acidente de trem acontecendo. A atuação de Lakeith Stanfield é muito deslocada em um Live Action. Ok, em um desenho animado (uau, chamei anime de desenho animado, um otaku caiu duro agora!) não fica TÃO chamativo assim um personagem que põe os pés na cadeira. Agora faça a experiência e sente desse jeito na lanchonete mais próxima:



Um dos conceitos que seria legal de adaptar é a coisa de Dexter vs Sherlock de Death Note… o que meio que não tem no filme. Não tem uma disputa intelectual realmente entre L e Kira, e tudo se resolve em poucos minutos.

Isso chama atenção, e é disruptivo de uma forma que só atrapalha a história. Não importa o quão excêntrica uma pessoa possa ser, não parece crível alguém ser tão excêntrico assim. Não funciona em um cenário que se supõe ser o nosso mundo. Tem uma cena que o L está usando seu “uniforme de assassino” no meio da rua. Acho que até as pessoas do outro bairro viram ele.

Não dá, não funciona. O mais perto que eu posso fazer para ilustrar o quão ridículo é um personagem de videogame/anime andando no mundo real é apontar os vídeos do Mega64, que é justamente o que eles fazem, e o resultado é tosquíssimo (só que, no caso deles, a intenção é justamente essa, em Death Note eu tenho bastante certeza que o objetivo era ficar cool)




UAU, PARECE REALMENTE RIDÍCULO…

E é. Isso para não falar que a construção do personagem não faz nenhum sentido. O filme diz que o L foi criado para ser o melhor detetive do mundo, e que já resolveu centenas de casos que exigiam nervos de aço. Na prática, o que nós vemos é ele tendo ataque de pelanca e agindo tão emocionalmente que o Punho de Ferro diria pra ele “uou, segura tua mariola, mona!”. Não faz sentido nenhum.

Eu diria que o L é a segunda coisa mais ridícula nesse filme todo.

TEM ALGO PIOR AINDA NESSE FILME? UAU, VOCÊ TINHA MINHA CURIOSIDADE, AGORA TEM MINHA ATENÇÃO!

Então, tem algo realmente pior nesse filme. Veja, o ato final tem um plot twist muito bem sacado. De verdade, de todas as coisas ruins que o filme faz, a sacada no final é uma muito bem feita mesmo!

ESTOU SENTINDO QUE VEM UM “MAS” POR AÍ…

… mas você realmente não consegue prestar atenção em nada disso. Sabe por quê? Porque durante as cenas épicas, dramáticas e reviravoltisticas do filme a música que toca é… O AMOR E O PODER, DA ROSANA!

PELO AMOR DE DEUS, QUEM É QUE COLOCA ROSANA EM UM MOMENTO DRAMÁTICO DECISIVO DE ALGUMA COISA?

QUAL É O PROBLEMA DE VOCÊS, SEU OLIGOBLASTOS EMACONHADOS? MAS PUTA MERDA, COMO QUE VOCÊS COLOCAM ROSANA PARA SER O ÁPICE DRAMÁTICO DE QUALQUER COISA? SÉRIO! SÉRIO MESMO VEZES MIL!

PÁRA CARA, NEM DEVE SER TÃO…




COMO UMA DEUSA VOCÊ ME MANTÉM E AS COISAS QUE VOCÊ ME DIZ ME LEVAM ALÉM… PUTA MERDA, CAGARAM O FINAL DO FILME MESMO! PUTA MÚSICA BREGA DA PORRA!

Eu não disse? Das muitas coisas que a Netflix pode ser acusada, nunca será de fazer um filme esquecível. Porque vamos lembrar para sempre de Death Note… infelizmente será cantando “O Amor e o Poder” junto. Hahahaha, sério, das coisas que eu esperava de Death Note, associar Rosana não era uma delas.

Verdade que poucos filmes me fizeram rir tanto na vida como o final de Death Note, mas tenho a suspeita que não era essa a intenção…

Honestamente, to na torcida para que eles façam uma continuação, só para tocar Total Eclipse of Heart no final. Esse é o nível da bagaça, senhores. Pois é.




Minha sugestão de L. Ficaria foda, vai dizer

TL;DR

Os filmes da série “Premonição” não são bons, consistindo principalmente de cenas de morte absurdas e drama adolescente. Mas se você precisar assistir algo por 15 minutos enquanto estiver jantando, é perfeito. Nem importa qual ponto do filme você começa, também. Início, meio, final? Quem se importa? Quer algo para assistir ao lavar a roupa? Premonição é a sua pedida. Death Note da Netflix é assim também. Não é bom o suficiente para chamar sua atenção, mas bom o suficiente para mantê-lo entretido enquanto você está alimentando seu peixe. Mesmo que seja pelos motivos errados… a música na sombra, o ritmo no ar…

Selo “tão ruim que é bom” de qualidade! (ou falta dela, isso é)

3 comentários:

  1. "...o Punho de Ferro diria pra ele “uou, segura tua mariola, mona!”
    Queria comentar várias coisas do (ótimo) texto, mas essa me chamou atenção. É incrível como os caras fazem um personagem que passa a série inteira dizendo que foi treinado por monges pra controlar suas emoções, mas passa 80% do tempo em cena fazendo cara de raiva e dando piti por razão nenhuma.

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    1. Uma coisa que eu realmente gostaria de fazer era conversar com os caras da Netflix e perguntar o que eles acham que meditação é. Pq várias vezes o cara "vai meditar para equilibrar o seu chi" putaço da cara e volta tão boladão quanto. Sério, gente, o que vocês acham que meditação é EXATAMENTE?

      Kung Fu Panda é um desenho de 1h20 (ou seja, nesse tempo tem que apresentar personagens, contar uma história com começo meio e fim e ainda fazer piadinhas) e passa muito melhor os conceitos de chi e paz interior do kung fu do que um personagem que já teve duas séries na tela!

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    2. Achei hilária aquela parte que ele vai procurar umas informações sobre o Tentáculo, num PC, e destrói tudo num ataque de fúria (AKA piti) porque não achou o que queria. Demitam o roteirista dessa série, pois o cara vive dizendo que é um monge mas a primeira coisa que ele fez quando voltou do retiro foi ameaçar de se jogar de um prédio com o irmão de criação dentro de um carro em alta velocidade...

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