quarta-feira, 1 de novembro de 2017

[FILMES] SWISS ARMY MAN (ou Harry Potter e o iate da flatulência)



O resumo mais correto que pode ser feito sobre esse filme é que ele é algum tipo de cruza entre O Náufrago e Um Morto Muito Louco com tantas piadas sobre peidos que Deadpool parece um filme maduro em comparação. Ainda que correta, essa também é a descrição mais errada que pode ser feita de um dos melhores filmes de 2016.

Vamos começar do começo: Hank está preso em uma ilha deserta após um acidente, sobrevivendo apenas com os mantimentos que vieram à deriva com ele até a praia. Conforme estes vão acabando, ele decide dar um fim rápido e prático a si mesmo antes que a fome ou a sede o façam. Então, enquanto nosso herói está lá, prestes a tocar no quiabo final de sua vida (segue minha tese que qualquer coisa encaixa como metáfora para morte e sexo), quando vê algo que todos em algum momento desejamos ver em nossas vidas: Harry Potter morto. Ou apenas eu e o Valdemar desejamos isso, não sei.

Bem, de todas as coisas que poderiam vir a cair em sua praia, poucas poderiam ser menos úteis do que o cadáver do Daniel Radcliffe. Ou assim ele pensava, pois ele descobre que nosso amigo que já derramou a mortadela (point taken again) é na verdade… UM HOMEM CANIVETE SUÍÇO!


 
Bem, acontece que o cadáver do nosso Potterzinho tem mil e uma utilidades sobre-humanas em suas reações fisiológicas (talvez ele seja uma experiência do governo, ou um alien… ou Hank está surtando pela inanição e solidão). Assim, Hank consegue escapar da ilha deserta surfando o cadáver em uma lancha improvisada propelida por peidos. Sério. Eu juro que estou falando sério. Essa cena inclusive está no trailer:




Assim, o filme segue uma série de impropriedades de Hank usando os “poderes” do corpo do Harry Potter para sobreviver e voltar à civilização. O que significa que você pode esperar muitos, muitos peidos, e literalmente dezenas de piadas sobre cocô e ereções.

Agora, eu sei o que você deve estar pensando… Aliás, não, eu não sei não. Qualquer um de nós pode realmente afirmar que conhece verdadeiramente outra pessoa além de nós mesmos, se é que podemos honestamente afirmar sequer tal coisa? De qualquer jeito, um questionamento válido seria… “O QUE DIABOS EU FUMEI?!?”, não é mesmo?

Quer dizer, eu não tenho mais 13 anos há bastante tempo, como eu posso achar um filme sobre um cadáver peidorreiro um dos melhores filmes do ano? Quer dizer, logo eu, que devo ser uma das três únicas pessoas no planeta que revira os olhos em desinteresse diante do humor de quinta série do filme do Deadpool?

Bem, é um pouco mais complicado do que isso realmente.




Potter se alimenta das suas lágrimas

Conforme Hank vai convivendo com o cadáver, o presunto Potter vai gradualmente voltando à vida. Eventualmente ele volta a falar também – seu nome é Manny, aliás. Mas, exceto por noções de como o idioma funciona, Manny não lembra nada sobre a vida realmente. Então Hank precisa explicar para Manny como a vida funciona. E quando você tenta explicar a nossa rotina para alguém totalmente alienado dela, percebe o quão ridícula e absurda ela é. E maravilhosa justamente por causa disso.

Assim, entre muitos peidos e outras escatologias, o filme casualmente balança na sua frente uma observação dolorosamente real após a outra sobre a vida, amor, amizade, morte, sexo, solidão, família e muito mais. Se um filme comunicasse uma ou duas dessas observações com sucesso, estaríamos defendendo isso como um dos filmes mais perspicazes do ano. Mas Swiss Army Man contém dezenas de valiosas lições de vida. Existe um nível de sabedoria incomum em exibição neste filme. Algumas dessas observações são mais profundas do que outras, com certeza, mas elas estão em toda parte.

Para mim, a chave do filme é que Hank está morto por dentro, enquanto Manny está morto por fora. No decorrer do filme, eles lentamente se recuperam mutuamente, e é essa transição que realmente dá a esse filme uma sensação de profundidade e o torna inspirador. Claro, e a trilha sonora do caralho.




Essa será a coisa mais profunda sobre peidos que você lerá hoje. Ou em qualquer outro dia.
Mais do que um filme sobre Daniel Radcliffe interpretando um cadáver peidorreiro, Swiss Army Man é um filme assustadoramente sincero sobre um homem e um cadáver descobrindo sobre a amizade, a beleza das pequenas coisas e até mesmo o amor. Sem piada, só depois que terminaram o filme um dos roteiristas (que também são os diretores) parou e virou para o outro:
Mas, puta merda, que filme estranho da porra, louvada seja Nossa Senhora do Avatar Korra!

Esse é um dos filmes mais estranhos que eu já vi na minha vida. Talvez justamente por isso é um filme ridículo com os diálogos mais sinceros que podem ser escritos sobre o prazer de fazer pipoca em um dia de chuva, ver a vida passar pela janela do ônibus, ou porque Jurassic Park é um dos melhores filmes de todos os tempos. É um filme completamente absurdo, mas um absurdo bonito que só pode nascer das coisas verdadeiramente estranhas.

Dito isso, é importante ressaltar que esse não é um filme para todos – afinal são poucas pessoas que gostam de coisas estranhas. O que é natural. Estranho é diferente, e na natureza diferente quase sempre significa uma morte horrível. Se bem que quase tudo na natureza significa uma morte horrível, mas, enfim. É uma ferramenta evolutiva muito poderosa a abominação humana ao diferente.
O estranho incomoda, o estranho é inadequado, o estranho é inconveniente. E essa é a maior sacada dos diretores estreantes Daniel Schneirt e Daniel Kwan (sim, uma dupla de danieis): enquanto você está vendo o filme, várias vezes você pensa no quanto ele é sensível e com boas ideias, e por que ele precisa ser tão repulsivo e nojento às vezes?

Bem, as partes imaturas e incomodas do filme não estão ali gratuitamente, é parte intrínseca da mensagem dele, na verdade. É o que Hank é: uma boa pessoa com boas intenções e bons momentos, mas ao mesmo tempo nojento e repulsivo de uma forma incomoda. Isso fica bastante claro no ato final do filme, onde é explicado o que realmente está acontecendo ali.


 Oh, isso não é nem de longe a parte repulsiva do Hank. O buraco do coelho é bem mais embaixo…

De certa forma, você meio que já imagina a explicação para a coisa toda, e ela não está errada. Mas, ao mesmo tempo, é de uma forma que não poderia ser mais diferente do que você pensou, mesmo você estando certo. É estranho, mas faz sentido quando o filme explica, e todas as escolhas da direção do filme fazem sentido.

Eu não vou entrar em maiores detalhes sobre o final do filme, tanto porque esse é um dos casos em que o spoiler é relevante à experiencia, quanto porque ele aborda assuntos que não podem ser discutidos abertamente na internet em 2017, e levanta perguntas que todo mundo sabe que não se pode dizer em voz alta.

É um final incomodo, estranho e maravilhoso à sua própria forma doentia. O que é um bom resumo do filme como um todo.


 
Tecnicamente, o filme é maravilhoso também. Sim. Este é o filme onde Daniel Radcliffe interpreta um cadáver peidorreiro. Muitas pessoas não conseguem passar desse ponto, mas o filme tem tanto mais a ser encontrado nas areias, oceanos e florestas que compõem o longa-metragem. Edição criativa. Efeitos especiais ultrajantes. Atuação digna de prêmios de Radcliffe (sim, como cadáver) e Paul Dano (o irmão mudo da Pequena Miss Sunshine, se você não estiver ligando o nome a pessoa). Uma trilha sonora que faria John Williams chorar de inveja.

A maior parte da música foi escrita e gravada antes da filmagem para que os atores pudessem cantar. Além disso, eles não podiam usar instrumentos (na maioria das vezes), e as letras são estranhas e idiotas como se estivessem perguntando “o que eu iria cantar para mim mesmo se eu estivesse sozinho e entediado no meio do mato?”

O resultado é arte.




Mas a maioria das pessoas nunca chega a esse ponto, realmente. Estão obcecadas demais com rótulos e títulos, e concepções tiradas de uma caixinha de respostas prontas. Com efeito, muitas pessoas saíram da sessão com 20 minutos de filme em sua estreia no festival de Sundance porque não iam perder seu PRECIOSO tempo com um filme que não fosse sério. Puta merda, como gente que usa “sério” como elogio me aborrece.

Por outro lado, se catalogar as coisas em categorias herméticas e simples, então talvez você não mereça um filme com frases como Se você não conhece Jurassic Park, você não sabe bosta nenhuma “A vida é curta e ninguém merece andar de ônibus sozinho”.




Eu gostaria de agradecer ao ótimo canal Entreplanos (que é um dos melhores canais em português do YouTube que fala sobre cinema, para quem se interessa pela estrutura e análise de filmes) pela dica do filme, que eu teria deixado passar de outra forma.

Swiss Army Man está disponível na Netflix com (questionável) nome em português “Um Cadáver para Sobreviver“.

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